quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Resenha - Traços


Desde que começaram a sair as primeiras notícias a respeito do lançamento do primeiro livro do Eduardo Cilto, que muita gente já deve conhecer por causa do casal dele no youtube, Perdido nos Livros, que eu fiquei super curioso pra ler. Primeiro porquê o Edu é um cara que a gente sabe que lê pra caramba, e isso é algo fundamental pra gente saber se um escritor pode ou não ser dos bons. Não levo muito a sério um escritor que diz que não gosta de ler (me julguem). Segundo por notar a alegria dele com a publicação, era bem claro que esse já era um projeto antigo, um sonho, e não tem como não ficar feliz em ver que um autor conseguiu realizar seu sonho da publicação. Mas, nesse caso terá um “mas”, fiquei um pouco decepcionado com o rumo que o livro tomou. Eu esperava por uma coisa e encontrei outra completamente diferente. Enfim, para poder falar disso melhor, segue a resenha.




Livro: Traços
Autor(a): Eduardo Cilto
Páginas: 272
Editora: Outro Planeta  


Sinopse: Quando Matheus aceitou acompanhar Beatriz na festa do colégio, jamais imaginou que terminaria a noite participando de um ritual místico (de veracidade duvidosa) para saber o que o futuro reservava para ele e a amiga. Assim que as velas que os cercavam se apagam e uma resposta esquisita encerra a cerimônia, Beatriz leva o resultado a sério e entende que deve fugir da cidade pequena para se encontrar com seu destino nas ruas da capital de São Paulo. Perdido no meio de tudo, Matheus é obrigado a repensar o que considera certo ou errado quando é convidado para participar do plano maluco de fuga e decide que precisa passar por cima dos limites impostos pelos pais para finalmente ser capaz de entender quem realmente é. Os dois amigos partem sozinhos para São Paulo e carregam consigo não somente as malas nas costas, mas também o peso de todos os problemas que achavam que estavam deixando para trás. Sem ter ideia do que estão enfrentando, Matheus e Beatriz descobrem mais sobre si mesmos, criam, quebram laços e encaram desafios que jamais pensaram que confrontariam enquanto contavam as moedas para realizar esse grande plano que iria mudar suas vidas para sempre.



Pra início de conversa eu queria deixar bem claro o quanto gostei da capa desse livro assim que ela foi apresentada. Ele já começou me ganhando por ai, com algo bem produzido e lindo. É uma capa jovem e que deixa transparecer um pouco do que poderemos encontrar dentro daquelas páginas, que é tipicamente um livro YA. Mas até a capa me irritou um pouco quando comecei a ler o livro e percebi quem era o casal que se encontrava nela. Eu esperava que fossem os protagonistas, mas não é o caso.

Matheus e Beatriz são nossos protagonistas em questão.
O livro é todo narrado em primeira pessoa sobre o ponto de vista de Matheus. Isso pra mim é algo muito positivo pois eu tenho a impressão de que livros em primeira pessoa conseguem causar uma aproximação muito maior entre leitor e personagem. A gente fica ali diretamente ligado com os sentimentos do narrador, ele está nos contando a história, estamos sabendo de tudo em primeira mão por ele, tendo as mesmas surpresas que ele, vivendo aquela vida, enfim... vocês entenderam.
Matheus é tímido e tem poucos amigos. Mas desde sempre foi apaixonado pela sua melhor amiga, Beatriz. Até aí temos um amor platônico até então não correspondido que deveria nos prender e fazer com que roemos as unhas e fiquemos na torcida pra que dê certo.
Não foi bem isso que aconteceu.

Matheus é um tédio.

Matheus é tão inseguro, tão manipulável, tão trouxa, que eu não consegui gostar dele em nenhum momento. O garoto não tem uma vida própria, nem tem desejo de fazer nada por si só. Ele faz tudo o que Beatriz quer, tudo para estar ao lado dela, sem ter um pingo de amor próprio. Na hora que o melhor amigo dele precisa dele, ele simplesmente dá as costas, mas pra Beatriz ele dá o mundo inteiro. Um saco esse garoto. 

Daí você pode me dizer: ah, mas isso é natural em muitos romances quando existe alguém completamente apaixonado. E eu vou dizer de volta: não, não é bem assim. Matheus é um pé no saco e o mundo dele gira completamente em torno de Beatriz. Em nenhum momento eu consegui identificar quem ele era realmente, porquê o garoto é uma confusão de sentimentos que faz a gente perguntar milhares de vezes quem ele realmente é.

Por outro lado temos Beatriz, a menininha rebelde que não acredita muito em misticismo e que de uma hora pra outra deseja fugir de casa para ir buscar seu destino em São Paulo. Bia tinha tudo para ser uma daquelas personagens que nos arranca suspiros, que faz com que nos apaixonemos por ela e tenhamos vontade de colocar num potinho. Mas isso não aconteceu. Ela é egoísta, prepotente e se acha a última bolacha do pacote. A garota só pensa nela e em mais ninguém. Um pé no saco igual o Matheus.

Beatriz é tão irritante que merece aplausos e um prêmio de chata mor.

Em nenhum momento eu torci pra que eles dessem certo e ficassem juntos. Eu só queria que o casal desse errado e que todos os planos deles fossem por água abaixo. Eu sabia que não adiantava essa torcida, mas eles eram tão chatinhos que tudo que eu desejava era poder pegar uma caneta e fazer com que a vida deles dessem errado.

A escrita de Eduardo Cilto é muito boa. Isso eu já esperava tendo em vista o leitor voraz que ele é. Não tem como ler tanto e esse aprendizado não ser transferido para o ato de escrever. Ele usa as palavras muito bem, não é de ficar repetindo termos, um texto bem escritor e uma redação maravilhosa. Porém, estou falando apenas da escrita. Não da história.

Ao meu ver, por ser o primeiro livro de Edu, ele precisava de mais tempo para amadurecer. Ler, reler, mudar, melhorar. A história em si se perde em muitos caminhos. Ela tem assuntos que deveriam fazer com que o livro fosse um sucesso. Sabe aquele livro que você vê que tem potencial para ser grande mas que não faz o seu dever de casa? Então, esse é um deles.

 Fiquei com cara de confuso em 90% do livro.

Existem histórias inacabadas, que começaram nos prometendo que poderiam ter um futuro mas que nunca saberemos pra que lado correu. Um certo personagem no início do livro tem um segredo descoberto por Matheus e logo depois por algumas amigas. Eu quis saber o que ia acontecer com esse “camaradinha”, uma vez que a história dele foi contada. Mas nada aconteceu, não houve um desenrolar. Edu simplesmente deixou a história passar e não desenvolveu. Não trouxe detalhes. Pareceu apenas que aquilo ali era pra dar um up do que poderíamos ter na trama, mas não tivemos nada.

Além disso, são tantas coincidência acontecendo que a gente se pergunta se é possível que de fato tudo aquilo estivesse sendo apresentado pra gente.
Estou me contendo para não soltar spoilers na resenha, como o motivo que leva Bia a querer fugir pra São Paulo, mas com tudo o que ia acontecendo eu não consegui ser pego de surpresa em nenhum momento. A coisa ia fluindo de uma maneira tão chatinha que comecei a prever quais seriam os próximos acontecimentos. E pasmem, eu adivinhei todos eles.

Não acredito que isso tá acontecendo. Sério?

Todos, menos um. Que realmente me pegou de surpresa no final.
Acontece uma certa morte que eu não esperava que acontecesse. Mas seria melhor que ela não tivesse acontecido. Ela não foi algo que valorizou a história, que fez com que ela tivesse um charme a mais, que nos emocionasse. Ela só fez com que eu me irritasse. E não era uma irritação por gostar da personagem ou algo assim, foi uma irritação por ver que aquela morte não teve nenhum fundamento. Não tinha sentido, não tinha porquê ela acontecer. Pareceu forçada.
Mais uma impressão minha: o autor queria impressionar com uma morte impactante, e acabou perdendo totalmente a linha. Já havia acontecido anteriormente uma morte que, essa sim, tinha uma lógica. Mas a última foi completamente descabida.

Como disse anteriormente, Eduardo tem uma escrita muito boa e que deve nos surpreender se for usada em um projeto que tenha início, meio e fim. Pé e cabeça. O que falta pra o jovem autor é apenas um auxílio, leitores sinceros que possam ler antes de qualquer apresentação para o público e dizer o que gostaram e o que não gostaram. São o que muitos chamamos de leitores betas. Eles vão ser os primeiros a verem seu trabalho e opinarem. Aqueles amigos que podem falar a verdade na sua cara sabendo que você não vai se irritar.

O livro tem uma temática adolescente que poderia ser abordada de mil maneiras. A história por trás da vida do irmão de Matheus e sua morte precoce é algo que deveria dominar a trama inteira, mas ela simplesmente surge, nos é apresentada, e depois morre. É algo forte e impactante, que não foi usado como deveria. Não dá nem pra se apegar ao cara.

Não sou um mestre da literatura nem um crítica profissional, apenas compartilho com vocês a minha impressão. E eu queria, com toda humildade do mundo, dar um conselho ao jovem Eduardo: você tem algo que muita gente gostaria que é uma escrita impecável. Além disso, já tem um público que o acompanha e que está pronto pra receber seus projetos de braços abertos, mas isso não deve bastar. Procure se cercar de amigos críticos que possam te auxiliar no desenvolvimento de suas histórias, que te levem a crescer como autor e escritor. Que digam sem medo “isso aqui está ruim”, “isso tem que ser mudado”, “explora mais esses pontos”, “dê mais personalidade pra esse personagem”, “não mata esse aqui, não”. O seu trabalho e o seu nome estão em jogo, e a gente sabe que você ama o que faz, só precisa se preparar um pouco mais.

Eu já fui muito afobado e queria finalizar a escrita de um livro em um mês se fosse possível. Com o tempo eu aprendi que as melhores coisas vem devagar. Maturidade. Ler, reler, reescrever. Ter calma e não se apressar porquê tem um prazo mínimo pra finalizar. Se você quer um trabalho bom, você tem que se dar o tempo necessário pra ele se desenvolver.

Eu espero poder ler um próximo trabalho do Eduardo e fazer uma nova resenha elogiando não apenas a escrita mas também todo o conteúdo. Sei que bagagem pra isso ele terá, só precisa seguir um caminho diferente e fazer valer o tempo certo para que cada personagem possa nascer, crescer, ganhar o mundo e nos encantar. O que, infelizmente, não foi o caso de “Traços”.




Espero que tenham gostado da minha resenha e voltem sempre.


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