quarta-feira, 7 de junho de 2017

Mulher-Maravilha: poder feminino dos bastidores às telas (uma análise crítica)

Depois de tantas controvérsias relacionadas ao DCEU (o universo cinemático estendido da DC) que vinha dividindo opiniões, e de sucessivas histórias de origem de super-heróis nas telonas, os desafios pareciam grandiosos para o longa da Mulher-Maravilha.
No entanto, o resultado da produção não apenas cessa as dúvidas sobre o futuro da DC, como também traz um necessário frescor à fórmula de filmes de super-heróis. Com uma narrativa cuidadosamente construída e cheia de significados, Mulher-Maravilha é a representação de heroína de que precisávamos neste momento.
Mulher-Maravilha faz grande sucesso com a crítica e o público. Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Mais importante do que qualquer discussão acerca do DCEU ou da fidelidade em relação aos quadrinhos da personagem, o longa-metragem merece uma análise por suas próprias qualidades e as lições que deixa para toda a indústria cinematográfica.

A diretora Patty Jenkins e seu controle sobre a produção

Inicialmente, é preciso reconhecer o talento da diretora Patty Jenkins no comando da produção, entregando uma obra de extrema clareza e coesão, muito bem amarrada, e que explora ao máximo a significação da história da heroína.
Ao mesmo tempo, Jenkins manteve um incrível controle sobre o projeto e, agora sabemos, brigou para manter cenas importantes no filme. A diretora revelou recentemente que não há sequências que tenham ficado de fora da edição final, o que significa também que a produção foi muito bem planejada desde o início e não desperdiçou tempo ou dinheiro com a gravação de cenas desnecessárias.
Considerando a quantidade de superproduções hollywoodianas que estouram orçamentos nas mãos de diretores megalomaníacos, que gravam horas e horas de filme para depois tentar solucionar a produção na ilha de edição (resultando em obras confusas e pouco coesas), Jenkins deixa uma primeira grande lição.
Patty Jenkins no comando da produção. Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Além disso, a cineasta comentou que precisou elaborar uma apresentação (em storyboard) para justificar a importância de uma sequência do filme para os executivos do estúdio, que não entendiam a relevância da cena dentro da trama.
Para nossa surpresa, trata-se de uma passagem vital na transformação de Diana na heroína das telonas: quando ela se lança na Terra de Ninguém, entre as trincheiras da guerra, para combater os soldados alemães. O argumento de Jenkins convenceu os executivos, em mais uma vitória da diretora.
Até mesmo as regravações, cada vez mais comuns nas superproduções, não foram realizadas para incluir sequências inéditas ao projeto, mas sim para aprimorar algumas cenas com as quais Jenkins não teria ficado completamente satisfeita após a filmagem principal.
O que foi regravado (como uma cena em que Diana vê cavalos sendo chicoteados) apenas substituiu o trecho que havia sido rodado anteriormente, sem qualquer mudança de ordem no filme. A diretora afirmou que nada foi adicionado posteriormente em relação ao roteiro inicial e que o resultado que vemos nas telas é exatamente o filme que ela sempre se propôs a realizar.
Jenkins junto com os atores Gal Gadot e Chris Pine no set de Mulher-Maravilha. Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Outra lição que a cineasta deixa à indústria de Hollywood é a maneira como lidou com a pressão, mesmo quando circulavam boatos de que seu filme era uma grande bagunça. Jenkins não se abateu com os comentários, manteve o foco no trabalho e não se sujeitou a entrar em discussão pública para defender a produção. No fim, isso se provou uma atitude nobre e sábia: hoje, a Mulher-Maravilha está aí provando seu valor.

Gal Gadot e a representação do poder divino e feminino

Esse trabalho primoroso da diretora Patty Jenkins seria em vão, no entanto, sem uma grande protagonista. Se a atriz Gal Gadot já havia roubado as cenas em Batman vs Superman, com o filme da Mulher-Maravilha ela mostra todo seu potencial. A intérprete da amazona traz beleza, graça, humor e muita força e determinação para sua personagem.
Além do preparo físico para as sequências de ação, que certamente exigiram muito da atriz, Gadot se destaca para valer nas cenas de aparente maior simplicidade, como aquelas em que Diana tenta entender “o mundo dos homens”, às vezes com espanto, às vezes com encantamento – mas sempre em conflito com seus ideais.
Diana tenta entender o mundo dos homens. Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Ao caminhar pelas ruas de Londres, com seu uniforme colorido e carregando sua espada e seu escudo, Diana ignora as regras sociais daquele começo de século XX. Mesmo assim, a personagem não se torna tola pela sua ingenuidade; pelo contrário, ela é uma força que nem Steve Trevor ou a secretária Etta Candy são capazes de controlar.
A interpretação precisa de Gadot dá o tom certo para esse entendimento sobre Diana em sua jornada junto à humanidade. A personagem reconhece o lado bom da civilização (ao ver um bebê, por exemplo), mas ao perceber os horrores da guerra, ela parte para a ação.
Ao se impor contra a violência dos homens, Diana se torna a super-heroína tão esperada. A Mulher-Maravilha surge então como uma intervenção ao mundo mergulhado na Grande Guerra.
Há uma mensagem poderosa nessa construção sobre a personagem como uma força destinada a acabar com a guerra, a restabelecer a ordem e salvar os homens da influência de Ares (o Deus da Guerra). Primeiro porque Diana é uma mulher em um mundo absolutamente machista, e segundo porque ela é uma representação divina, sendo filha do próprio Zeus.
Novamente, estamos menos interessados em como o filme adapta os quadrinhos da Mulher-Maravilha ou como essa história se relaciona com o DCEU, mas analisamos aqui a significação da obra cinematográfica em si. Neste caso, o longa-metragem faz algo de suma importância: engrandecendo o papel da mulher na história e na sociedade.
Mulher-Maravilha fala sobre o papel da mulher na história e na sociedade. Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Desde o primeiro ato na Ilha de Temiscira, quando somos apresentados à origem das amazonas, até a jornada de autodescobrimento de Diana em meio à guerra, a produção coloca a Mulher (maravilha ou não) no centro da ação. É a bússola moral da personagem, com base em seus ideais e suas crenças, que combate a guerra e também os valores patriarcais.
Em determinado momento, ao combater inimigos em um vilarejo, a Mulher-Maravilha elimina um último atirador no alto de uma igreja. Ao final da batalha, a heroína aparece imponente no topo da edificação religiosa, enquanto os habitantes admiram a sua salvadora. A imagem não poderia ser mais significativa: a Mulher-Maravilha é uma representação divina.
A sequência é uma amostra da reflexão ao qual o filme se propõe – e por que a produção pode ser uma das melhores e mais relevantes adaptações cinematográficas dos quadrinhos. Mulher-Maravilha diz muito sobre o mundo em que vivemos, tanto pelo estado constante de guerra quanto pela luta das mulheres por espaço em uma sociedade ainda muito machista e regida por religiões igualmente patriarcais.
Por essas e outras, Mulher-Maravilha, estrelado e dirigido por mulheres, é o filme de que precisávamos neste momento, com lições desde sua concepção e execução até seus heroicos significados.

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